Sunday, August 26, 2007

DE CABRAL, A LULA JOAQUINS DA SILVA: O QUE MUDOU NESSE PAÍS?



A manhã de sábado prometia. Levantei-me com os cânticos desarmonizados dos galos, os cocoricar das galinhas que de mansinho, despertavam todos os de sono leve, na encantada Ouro Preto. Como de hábito, na padaria próxima a casa de Tiradentes, tomei um quente café com leite e comi dois pães com uma derretida manteiga mineira, que diante do calor, pão adentro, insistia em escorregar ladeira abaixo, da massenta farinha daqueles tenros pães. O próximo hábito: a corrida circundando a antiga Vila Velha. Nada de corrida com saída chegada e vendedor. Apenas, uma corrida! Solitária! Envolvendo eu e meus pensares. Juntos revisitaremos um dos maiores e mais revoltante evento de nossa cultura. Uma longa e deliciosa volta ao passado que começa, desde a praça da decapitação de Tiradentes e termina, uma hora e quarenta minutos depois, na estação ferroviária, local este que trouxe para o mundo das letras, um dos mais importantes professores do Século XX: Professor Rosalvo Madeira Cardoso.

O descaso para com o planejamento desde o Século XVII



O sol lambia suavemente o frio orvalho daquela madrugada de inverno. Tocava com seus raios dourados minha pele. Eu, iniciando minha corrida, estava elaborando mentalmente lembranças sobre aquela que viria resolver todos os problemas da Portugal dos séculos XVII e XVIII, incluso o grande terremoto de Lisboa. Lembranças que provocam revolta pela falta de planejamento e o excesso de gastos daquele Império. Aqueles “nobres-pobres-de-espírito”, agiram como se, aquele ouro negro fosse eterno. A primeira parte da corrida, transcorrido dois quartos de hora, pouco vi de Ouro Preto. Passada a primeira meia hora, comecei a contemplar aquela cidade como um todo, diante da altura que me encontrava. Minha mente voltou ao passado. Histórias, lendas e fantasias, perpassavam minha lente ótica mental. Incluso, a passagem por um local onde, segundo a história, centenas de aventureiros, primevos do ciclo do ouro, morreram de inanição, decorrente da falta de planejamento no plantio de algo que os alimentasse. A ignorância mental, somada à ganância da alma, teve como resultado a fome e a total falta de alimentos. O Governo da época propunha dar ao descobridor a cata, desde que, o mesmo, repassasse o quinto. Nada foi planejado para que, ao menos, houvessem sobreviventes na empreitada.

A insegurança diante de todos os perigos que aqueles que se envolvem com o ouro



Acredito ter existido mais seguros para grandes trajetos com o nobre metal do Século XVII, porém, minutos antes de chegar ao topo da corrida, passei pelo Passa Dez. Esse local empresta o nome em razão da falta de segurança que todos os senhores de catas enfrentavam para levar o ouro até Parati. Eles em comboios de dez, faziam a perigosa viagem com seus muares carregados do mais puro ouro daquele tempo, alguns chegando a ter até 23 quilates. Os perigos eram tantos que, a hoje divulgada Estrada Real, segundo dados históricos, em realidade eram dezenas de caminhos. Esse estratagema era para iludir os assaltantes da época áurea. As mortes provocadas nas catas eram por demais aviltantes e o descaso público na apuração dos fatos se dava de acordo com a proximidade do assassinado em relação ao poder vigente. Casos não solucionados eram aqueles que o morto não tinha uma fortuna digna de visibilidade junto ao poder público. Outra prática era o emparedamento das vítimas, ou seja, matava-se e colocava o assassinado em uma parede de pau-a-pique. O corpo seria encontrado quando essa parede caísse ou fosse derrubada. Até hoje se encontram emparedados.

A escravidão negreira e o rombo no caixa dos senhores das catas



Estava chegando ao trevo que vai para Ponte Nova, quando cruzei com um casal de negros, provavelmente, moradores de fazendas próximas. A elegância do bom dia recebido deles despertou-me para o sofrimento daquela raça nas mãos dos senhores de catas. Torna-se inexplicável por meio de figuração a violência imposta àqueles que, com picaretas, iluminação de velas, alimentados de forma incorreta, tinham que trabalhar durante o dia, sem ver a luz do sol. Trabalho insano que durava mais de quinze horas a cada dia. Eles não tinham a CUT ou a Força Sindical para garantir-lhes seus direitos. Por outro lado, o Império com sua nau econômica à deriva na Europa, necessitava de muito ouro para cobrir os rombos e roubos que a corte promovia, sem contar os péssimos contratos que a lusitana nau assinava com ingleses. Com todas as contas no vermelho o Império-Trás-dos-Montes, promovia todos os desmandos para com os senhores donos de catas ouriferas, o que explica a grande quantidade de levantes contra o referido Império, o mais conhecido deles, cujo mártir tem seu nome na praça a qual inicio sempre essa corrida.

Os discípulos de Judas e conluios com o Império



O sol esquentara. Seus raios se transformaram em lanças a rasgar minha pele, quando estava retornando novamente ao que outrora fora uma das capitais mais luxuosas do planeta, superando Londres, Paris e Roma. Passei então por duas pessoas que falavam para quem quisesse ouvir: “não tem jeito eu desconfio mesmo”. Salto para o outrora! Volto aos primórdios da Era Dourada. Era um orgulho para qualquer cidadão lusitano dizer-se “delator”. Alcagüetar, entregar o outro para os representantes do Império. O orgulhoso sabia que, a cada dedoduragem encheria sua algibeira de patacas, cobres e vinténs e teria o direito de voltar a “terrinha”. Os oriundos do Tejo, jamais pensaram em progredir naquele chão, que durante a corrida estava sorvendo meu suor. Conhecemos apenas o mais famoso deles: o Joaquim, que se tornou traidor, pela má administração de seus negócios, que para ter suas dívidas perdoadas e uns trocados a mais e depois, para curtir sua “terrinha” natal, delatou o outro Joaquim: o mártir.

Como foi fácil escrever esse blog



De volta ao presente, cheguei pleno de felicidade ao recinto que, um grandioso centenarista brasileiro esculpiu, em um terreno acidentado, e que foi, um dia, o mais luxuoso hotel de Ouro Preto. Atualmente superado em conforto por outros hotéis e pousadas, o Grande Hotel, mantém, no entanto, o encanto do atendimento, proporcionado pelo Nazareno, digno representante de Santa Efigênia e Nayara, uma linda mineira que com seu sorriso e o curso de filosofia, encanta com cultura e atenção os hóspedes. Debaixo do chuveiro escrevia este blog, em cores vermelhas, com minha BIC mental, utilizando todos os neurônios aquecidos pelo sol e refrescados pela morna água, e pensava: o que de fato mudou nessa Pátria desde então? A resposta veio no momento que fechei a torneira e enxugava cada gota d´agua que escorria ainda pelo meu corpo: NADA. Pena, não é mesmo! Faço minha mea-culpa: também não mudo. Ao findar do dia, sempre vou a um recital de cravo, comandado pela maior conhecedora de cravos e órgãos do Brasil, Elisa Freixo – que sempre nós convida para o recital de órgão em Mariana no domingo-, para depois, na praça do Rosário, descer as escadarias do Acaso 85, encontrar as Dras. Rigueiro e Beth, que nas horas de trabalho são UFOPEANAS e nas de lazer comandam um dos mais exóticos restaurantes de Vila Velha. Mesa posta com bamba de couve e costelinha, um bom vinho safra 2004 e assim vai caminhando a humanidade.

Sunday, August 12, 2007

PIPOCA, RUBENS, NEITZSCHE, FERNANDA E CAROLINA


Aquela noite fizera um armistício com o frio. Suave e calorosa estava. Sem lua, mas, com seu manto negro, pontilhada de reluzentes e brilhantes corpos celestes, a cobrir a bela Campinas. Fora convidado para uma palestra de Rubens Alves, meu dileto contador de histórias para adultos, igualmente apreciado pelas crianças. Mineiro de Boa Esperança, filósofo da vida, avô nas horas vagas, era Rubens e a noite de calor ameno, a certeza do agradável. O tema hilário “pipoca”. Um grupo seleto! Seres humanos com a vontade de ouvir aquele que, com seus livros infantis, desperta em mim a vontade de continuar a pensar como adulto, tendo meus repentes da melhor e adorada criancice.

A pipoca, Fernanda e Carolina
O espaço cultural era amplo. Por essas coisas de Deus, acabei sentando-me em um lugar que estava próximo à duas pessoas da mais tenra idade. Lindas irmãs que, ao findar a palestra, fui perguntar-lhes os seus nomes: Fernanda, que já ocupa seu espaço na terra há quatro anos e sua irmã Carolina de seis. Antes mesmo de iniciar a palestra, fiquei olhando para as lindas, lindas mesmo, garotas, e a imaginar que, seus pais, não tendo com quem deixá-las, optaram por levá-las ao evento.Imaginei que as garotinhas em determinado momento começariam a correr pelo recinto, fazendo seus pais desistirem de continuar ouvindo a palestra. Rubens Alves chegou no horário como lhe é peculiar e ao começar o encantamento da platéia, alguém da mesma, sacava sua câmara filmadora e iniciava a gravação do evento. Advinha, caro leitor, quem iniciara a filmagem? Fernanda. Essa guapa menina de olhos azuis estelar, de quatro anos, pegou sua câmara filmadora, exatamente do tamanho de sua mão e começou a filmar Rubens Alves. Em um determinado momento, ao falar sobre o porque a pérola surge, Rubens foi surpreendido pela resposta de Carolina, a irmã de seis anos que afirmou: “por causa de um grão de areia que fica dentro dela”.

Imantei meu coração de júbilo.
Pronto! A pipoca, Fernanda e Carolina estavam fazendo parte daquele cenário, cujo propósito era fazer pessoas pensarem. Imantavam meu coração de júbilo, aquelas duas dádivas Divinas. Reforçavam meus entendimentos de que, se houver estímulos, seres humanos são partícipes da atual convergência internacional. Mesmo tendo aquelas que somadas suas idades completam apenas duas mãos, no entanto, se somados os estímulos que recebem do Mundo Plano não teremos mais parâmetros para dizer qual a idade delas. Se considerarmos elas e seus estímulos, advindos do mundo subatômico, podemos defini-las como plenas de conhecimento sobre a Convergência Internacional, com idades “avançadas”, que se comparadas à idade de muitos que estavam na platéia e nada entendem de ligar uma simples câmara filmadora, essas lindas criaturas são mais desenvolvidas.

Nietzsche, o filósofo preferido de Rubens Alves
Rubens em sua particular forma de fazer pessoas pensarem expôs que, no cipoal de neurônios e axônios, composição física do pensar, aquele que pensa, necessariamente não vê as coisas como elas são. Que uma pedra para Drumonnd não denota uma pedra ou como uma cebola, para uma sua cliente, pôde se transformar em uma rosa molhada com suas pétalas brancas. Entre um encantamento e outro, destacou o quando gosta de Nietzsche e de tudo o que o filósofo alemão nos legou com seus questionamentos sobre o pensar. Na avenida do pensamento, Rubens desfilou pesadas e coerentes críticas ao nosso modelo pedagógico, referência feita a aversão de todas as crianças por livros. Como pedagogo de formação, Alves disse que os professores são propensos à fazer com as crianças, em relação aos livros, duas aberrações:incentivar o fichamento e interpretação, de livros e textos respectivamente.

A inversão no processo do pensar
Segundo Rubens, Nietzsche sempre foi contrário a tudo o que é colocar ordem no caos do pensar. Prática que professores, infelizmente, acabam invertendo no processo do pensar. Colocando ordem, acabam por tirar das crianças, o prazer pela leitura. Fichamento faz com que as crianças, percam a vontade de viajar no conteúdo, para ancorarem no porto seguro da realidade. Interpretações as fazem parar de pensar, para repetir ou imaginar o que o escritor quis dizer. Reforçou Rubens: “quando digo algo em meus livros, escrevo exatamente o que está escrito. De nada adianta os professores quererem tirar da mente de seus alunos, exatamente aquilo que eu não quis dizer”. Finalizou dizendo que, pessoas que têm um livro ao seu lado, nunca estão solitárias.

Presentear sempre com bons livros, menos os de auto-ajuda
Rubens sugeriu que devemos presentear com livros pessoas que gostamos, menos com os de auto-ajuda. Comecei a aplaudi-lo, com vibrantes palmas internas que ressoavam em meu coração. Explicou Rubens o por quê. Que pessoas não devem perder tempo com conselhos, pois, em sua experiência como professor, pai e depois como avô, não viu em suas prerrogativas em dar conselhos, resultados positivos, ou seja, conselhos que ele ofertou tiveram nenhum resultado. Portanto, livros de auto-ajuda, que são conselhos, nada trazem de positivo para as pessoas, a não ser, levarem as mesmas a ficharem suas vidas, tornando-as pecadoras, devedoras de pecados e dívidas que nem sempre são seus e sim da civilização. Continuou Rubens: todos nós sabemos como resolver nossos desconfortos diminuindo ou eliminando nossos sofrimentos, mas, nos falta coragem e não livros de auto-ajuda. Que livros, sem ser os de aconselhamentos, levam pessoas a nada pensar. É um ato de pura vagabundagem mental, para depois, com o cérebro descansado das agruras de nosso cotidiano, possamos de fato partir para a ação. Mudar mesmo e não filosofar sobre mudanças! Resumindo, que o ser humano precisa de livros para pensar e não livros para fazer fichamento de suas covardias diante das mudanças necessárias. E, Fernanda registrando tudo e Carolina olhando Rubens pelo visor da câmara da irmã.

Pensar necessariamente não precisa de fichamento nem de interpretação.
Deixei aquele recanto de lindas frases, longas histórias e a maravilhosa participação de Carolina, a única que depois da palestra fez uma pergunta para Rubens Alves, com a sensação de que não pensamos. E, se o fazemos, não percebemos a importância desse pensar, pelo simples fato de que, fomos obrigados por longo tempo a detestar livros, a não ser aqueles que estão na moda, e se lemos, não entendemos, se entendemos, não praticamos. Em leitura de muitos desses livros de aconselhamentos, sequer entramos no âmago da idéia central do autor, pensamos em nossa triste existência a cada página virada. Precisamos sim desses livros da “moda”, para estar com eles anexado por um tempo ao nosso “suvaco” ou em cima de nossa mesa, para que a humanidade acredite que somos intelectuais e temos como hábito o pensar. Porém, como afirmou Rubens, em rodas de prosas, temos com o pensar atual, falar duas coisas: futebol e da empresa, sempre negativamente é claro.

Pensar a vida sem fichamentos e interpretações
Enquanto meu sono teimava em ficar acordado, liguei a máquina registradora de pensamentos e escrevi essas singelas linhas. Do meu humilde ponto de vista, a intelectualidade deve ser o primeiro movimento de nossa alma. O alimento que fortalecerá todo processo de conhecimento que devemos levar vida afora. No entanto, informação por si mesma não é tudo. Fichamento de valores ou interpretação de nossas vidas não resolvem nossas jornadas repletas de necessidades de mudanças. Assim como excelentes vendedores de pacotes de viagens, nunca estiveram nos locais que afirmam maravilhosidades, excelentes conhecedores do Cristo que nunca tiveram o manifesto da bondade por Ele ensejada e escritores de conselhos nada praticam para si próprios, devemos ter em mente que, Fernanda e Carolina estão sendo estimuladas a serem e viverem no Mundo Plano, pós-globalização. Faço ao findar desse artigo, homenagens a Ana Feres pelo convite da palestra, a Rubens Alves pela magnitude da palestra, a explosão da pipoca tornando-se, de dura e amarelecida, alva e macia, diante de seu sofrimento frente ao calor excessivo, a Fernanda que com seus quatro anos, ao invés de ficar correndo em meio aos participantes, decidiu registrar um dos maiores filósofos da atualidade e a Carolina pela sua brilhante pergunta feita a Rubens Alves “ o que você acha da minha professora que pediu para eu criar um romance de um livro lido?”. E, em especial a minha própria mente, que entrementes, não deixou passar desapercebido a noite na qual a pipoca fez parceria com Nietzsche, Fernanda e Carolina.