
A manhã de sábado prometia. Levantei-me com os cânticos desarmonizados dos galos, os cocoricar das galinhas que de mansinho, despertavam todos os de sono leve, na encantada Ouro Preto. Como de hábito, na padaria próxima a casa de Tiradentes, tomei um quente café com leite e comi dois pães com uma derretida manteiga mineira, que diante do calor, pão adentro, insistia em escorregar ladeira abaixo, da massenta farinha daqueles tenros pães. O próximo hábito: a corrida circundando a antiga Vila Velha. Nada de corrida com saída chegada e vendedor. Apenas, uma corrida! Solitária! Envolvendo eu e meus pensares. Juntos revisitaremos um dos maiores e mais revoltante evento de nossa cultura. Uma longa e deliciosa volta ao passado que começa, desde a praça da decapitação de Tiradentes e termina, uma hora e quarenta minutos depois, na estação ferroviária, local este que trouxe para o mundo das letras, um dos mais importantes professores do Século XX: Professor Rosalvo Madeira Cardoso.
O descaso para com o planejamento desde o Século XVII
O descaso para com o planejamento desde o Século XVII
O sol lambia suavemente o frio orvalho daquela madrugada de inverno. Tocava com seus raios dourados minha pele. Eu, iniciando minha corrida, estava elaborando mentalmente lembranças sobre aquela que viria resolver todos os problemas da Portugal dos séculos XVII e XVIII, incluso o grande terremoto de Lisboa. Lembranças que provocam revolta pela falta de planejamento e o excesso de gastos daquele Império. Aqueles “nobres-pobres-de-espírito”, agiram como se, aquele ouro negro fosse eterno. A primeira parte da corrida, transcorrido dois quartos de hora, pouco vi de Ouro Preto. Passada a primeira meia hora, comecei a contemplar aquela cidade como um todo, diante da altura que me encontrava. Minha mente voltou ao passado. Histórias, lendas e fantasias, perpassavam minha lente ótica mental. Incluso, a passagem por um local onde, segundo a história, centenas de aventureiros, primevos do ciclo do ouro, morreram de inanição, decorrente da falta de planejamento no plantio de algo que os alimentasse. A ignorância mental, somada à ganância da alma, teve como resultado a fome e a total falta de alimentos. O Governo da época propunha dar ao descobridor a cata, desde que, o mesmo, repassasse o quinto. Nada foi planejado para que, ao menos, houvessem sobreviventes na empreitada.
A insegurança diante de todos os perigos que aqueles que se envolvem com o ouro
Acredito ter existido mais seguros para grandes trajetos com o nobre metal do Século XVII, porém, minutos antes de chegar ao topo da corrida, passei pelo Passa Dez. Esse local empresta o nome em razão da falta de segurança que todos os senhores de catas enfrentavam para levar o ouro até Parati. Eles em comboios de dez, faziam a perigosa viagem com seus muares carregados do mais puro ouro daquele tempo, alguns chegando a ter até 23 quilates. Os perigos eram tantos que, a hoje divulgada Estrada Real, segundo dados históricos, em realidade eram dezenas de caminhos. Esse estratagema era para iludir os assaltantes da época áurea. As mortes provocadas nas catas eram por demais aviltantes e o descaso público na apuração dos fatos se dava de acordo com a proximidade do assassinado em relação ao poder vigente. Casos não solucionados eram aqueles que o morto não tinha uma fortuna digna de visibilidade junto ao poder público. Outra prática era o emparedamento das vítimas, ou seja, matava-se e colocava o assassinado em uma parede de pau-a-pique. O corpo seria encontrado quando essa parede caísse ou fosse derrubada. Até hoje se encontram emparedados.
A escravidão negreira e o rombo no caixa dos senhores das catas
Estava chegando ao trevo que vai para Ponte Nova, quando cruzei com um casal de negros, provavelmente, moradores de fazendas próximas. A elegância do bom dia recebido deles despertou-me para o sofrimento daquela raça nas mãos dos senhores de catas. Torna-se inexplicável por meio de figuração a violência imposta àqueles que, com picaretas, iluminação de velas, alimentados de forma incorreta, tinham que trabalhar durante o dia, sem ver a luz do sol. Trabalho insano que durava mais de quinze horas a cada dia. Eles não tinham a CUT ou a Força Sindical para garantir-lhes seus direitos. Por outro lado, o Império com sua nau econômica à deriva na Europa, necessitava de muito ouro para cobrir os rombos e roubos que a corte promovia, sem contar os péssimos contratos que a lusitana nau assinava com ingleses. Com todas as contas no vermelho o Império-Trás-dos-Montes, promovia todos os desmandos para com os senhores donos de catas ouriferas, o que explica a grande quantidade de levantes contra o referido Império, o mais conhecido deles, cujo mártir tem seu nome na praça a qual inicio sempre essa corrida.
Os discípulos de Judas e conluios com o Império
O sol esquentara. Seus raios se transformaram em lanças a rasgar minha pele, quando estava retornando novamente ao que outrora fora uma das capitais mais luxuosas do planeta, superando Londres, Paris e Roma. Passei então por duas pessoas que falavam para quem quisesse ouvir: “não tem jeito eu desconfio mesmo”. Salto para o outrora! Volto aos primórdios da Era Dourada. Era um orgulho para qualquer cidadão lusitano dizer-se “delator”. Alcagüetar, entregar o outro para os representantes do Império. O orgulhoso sabia que, a cada dedoduragem encheria sua algibeira de patacas, cobres e vinténs e teria o direito de voltar a “terrinha”. Os oriundos do Tejo, jamais pensaram em progredir naquele chão, que durante a corrida estava sorvendo meu suor. Conhecemos apenas o mais famoso deles: o Joaquim, que se tornou traidor, pela má administração de seus negócios, que para ter suas dívidas perdoadas e uns trocados a mais e depois, para curtir sua “terrinha” natal, delatou o outro Joaquim: o mártir.
Como foi fácil escrever esse blog
De volta ao presente, cheguei pleno de felicidade ao recinto que, um grandioso centenarista brasileiro esculpiu, em um terreno acidentado, e que foi, um dia, o mais luxuoso hotel de Ouro Preto. Atualmente superado em conforto por outros hotéis e pousadas, o Grande Hotel, mantém, no entanto, o encanto do atendimento, proporcionado pelo Nazareno, digno representante de Santa Efigênia e Nayara, uma linda mineira que com seu sorriso e o curso de filosofia, encanta com cultura e atenção os hóspedes. Debaixo do chuveiro escrevia este blog, em cores vermelhas, com minha BIC mental, utilizando todos os neurônios aquecidos pelo sol e refrescados pela morna água, e pensava: o que de fato mudou nessa Pátria desde então? A resposta veio no momento que fechei a torneira e enxugava cada gota d´agua que escorria ainda pelo meu corpo: NADA. Pena, não é mesmo! Faço minha mea-culpa: também não mudo. Ao findar do dia, sempre vou a um recital de cravo, comandado pela maior conhecedora de cravos e órgãos do Brasil, Elisa Freixo – que sempre nós convida para o recital de órgão em Mariana no domingo-, para depois, na praça do Rosário, descer as escadarias do Acaso 85, encontrar as Dras. Rigueiro e Beth, que nas horas de trabalho são UFOPEANAS e nas de lazer comandam um dos mais exóticos restaurantes de Vila Velha. Mesa posta com bamba de couve e costelinha, um bom vinho safra 2004 e assim vai caminhando a humanidade.
