Monday, October 16, 2006

Enxergando nosso atraso pela janela do trem


Tempos atrás, vi passar pela janela de um carro que dirigia Europa adentro, algo inusitado para um brasileiro: um trem que em segundos desaparecera de minha vista, dado sua incrível rapidez. Olhando o velocímetro do carro, percebi que perdera o trem de vista, mesmo estando a cento e oitenta quilômetros por hora. Calma! Caro leitor, não estava infringindo a lei, ocorre que por estar em uma pista de rolagem que não permitia baixa velocidade, era obrigado a “voar” naquele carro. Aquela cena nunca mais saiu de minha cabeça. Nesse final de semana prolongado, deixei o conforto de minha residência, os pensamentos sobre meus trabalhos e relaxei meu corpo em uma confortável poltrona de um trem, que partiria por entre montanhas, seguiria por longas horas a beirada de um caudaloso rio, sendo que depois de quatorze horas me deixaria à beira mar.

Muito além do conforto

Um trem, horas e horas de paisagens e muitos jovens em busca daquele mesmo mar que eu buscava, ofertam aos passageiros curiosos como eu, inúmeros motivos para fazer dessa viagem uma lição de vida. Papo vai, papo vem com a “galera”, que somente viam naquele caminho de ferro, naquelas cadeias de montanhas e naquelas plácidas e caudalosas águas, motivo para reclamar da demora daquele trem, contrariavam meu motivo que enxergava aquela juventude, uma oportunidade de conversar com ela sobre o que representava aquela viagem. Além do preço baixo da passagem, a demora, às duas horas de atraso, aquela viagem para aqueles jovens, segundo eles, representava apenas um elo entre o centro de Minas Gerais, a partir de sua Capital e a chegada ao mar, na bela Vitória.

Não deixei passar a oportunidade de constatação de nosso atraso

Além do atraso do trem, percebi o atraso da mente daqueles jovens, não por culpa deles, mas, por não terem tido eles, a oportunidade tácita de sentir a velocidade de um trem globalizado. Quando temos apenas a construção mental de nosso próprio reflexo, ou seja, a nossa própria imagem, acreditamos que a realidade é aquela por nós refletida. Aqueles jovens aceitaram aquele trem e seus sete mil e duzentos segundos de atraso, pelo fato de não terem uma comparação do que é um trem que desaparece da vista de uma pessoa, mesmo estando ela a quase duzentos quilômetros por hora. Assim é a globalização. Somente agora que competimos com as mesmas ferramentas que outros países que percebemos o atraso desse trem chamado Brasil.
Empresa oferecendo empregos e desempregados atrasados

É com pesar que lemos todos os dias empresas reclamarem de seus custos na tentativa de contratação de pessoal. Mesmo tendo esse volume de desempregados no Brasil, vemos empresas estarem dispostas a deixar o Brasil e partirem para países que tenham esses velozes trens mentais desenvolvidos. Lemos que empresas reprovam noventa e cinco por cento dos entrevistados, por não terem eles a mínimo minimorum para, ao menos, terem condições de serem treinados. Não estou falando sobre vagas de mecânica espacial, e sim, de pessoas entrevistadas para trabalhar em telemarketing, lojas de departamentos, livrarias, entre outros setores que apenas o empregado tem contado com outros seres humanos. São desclassificados pela falta de cultura mínima, palavreado chulo, falto de entendimento de texto, e acreditem, por não saberem resolver questões matemáticas que envolvem juros simples.

Nosso trem não descarrila, mas, de nada serve

Como consultor e professor universitário, fico pensando no movimento desse trem da vida brasileiro, que segue seu rumo, sem grandes chacoalhadas, sem descarrilamento, sem pressa e o pior, sem rumo. Nosso trem não está preparado para chegar a lugar algum. Esse fato demanda séculos. Trocamos a Maria-Fumaça pelo Mario-Diesel, mas, o trem continua lento, lentidão que nos serviu até os anos noventa, quando não tínhamos que nos comparar a nada, bastava olharmos em nosso espelho do atraso e vermos que éramos assim mesmo. O espelho mundial da globalização é ágil, dinâmico, ético, moral e desliza a mais de trezentos quilômetros por hora, portanto, quando tentamos enxergar nossa imagem nesse espelho mundial, nada vemos, pois, nosso reflexo é lento demais.

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