O muro alto não foi o suficiente para impedir que o vendedor de laranjas anunciasse seu produto em oferta. Essa oferta estava acompanhada de uma música, deixando aquele ambiente triste. Aquela tristeza experenciada por todos os presentes, naquele instante, era uma realidade que não poderia ser modificada. A oferta e a música penetraram em minha mente, misturando como se fora um liquidificador, minhas reminiscências, atingindo como uma flecha meus olhos, que estavam fixados naquele último ato, de uma cena de vida, na qual, um dos protagonistas deixava esse mundo para sempre. A música adentrava aquele jazigo, em sincronismo com minhas lágrimas que banhavam aquele esquife, que guardaria para todo o sempre, parte de minha existência. Estava dando adeus a minha mãe.
As lágrimas, a música e as histórias que vivi
Ver pela última vez aquela pessoa que me proporcionou a vida, tendo naquele momento, perdido a dela, vida terrena, para ingressar na vida eterna, dói demais. Mas, a vida daquele vendedor de laranjas continuava, sua música no jazigo adentrava, as lágrimas derramavam sobre o esquife, minha mente vagava. Retroagi por longos cinqüenta e tantos anos de lembranças, as quais estive junto àquela que dera a luz a este que vos escreve. Como não aceitamos a perda de entes queridos, mesmo sabendo que eles partem dessa, para que em outra existência possam estar ao lado do Pai. Durante aqueles longos e derradeiros instantes, milhares de imagens orbitavam pululando de axônio, para neurônio, transformando minha mente em um Atlas de uma vida que passei ao seu lado. Pensava: “mamãe morrera, a vida continua e as laranjas têm que ser vendidas”. O duro é aceitar toda essa realidade.
Mamãe não pôde ver a capa do meu livro
Um dia antes do falecimento de minha mãe, estava fazendo a foto do livro que lancei no dia oito próximo passado. Queria que ela pudesse ter visto. A capa é composta por seu neto, em primeiro plano, tendo seu filho em segundo. O neto Eduardo acumulou a função de seu afilhado. Ironia do destino ou não, estaria lançando um livro sobre sucessão familiar e, justamente, um dia antes, perdia aquela que me deu a oportunidade de ser seu sucessor. A vida continua, laranjas devem ser vendidas e um livro deve ser lançado. Transpondo aquele alto muro para se alojar nos recôncavos daquela lúgubre morada eterna, local que repousará para sempre minha mãe, uma música denotava a presença e a existência de sons, que compõem a alegria de viver, mesmo que estejamos na presença da morte.
A altivez, a força e os exemplos daquela mãe
Filha de pai descendente de índios e mãe descendente de negros, quis a vida que viesse em mil novecentos e trinta, aquela criança do sexo feminino, que esteve labutando na tenra idade, nas lavouras de café, das fazendas na região de Campinas. Tempos depois, fora para a São Paulo, Capital, ser empregada doméstica, local este que na juventude, o destino quis que ela conhecesse um filho de italianos e desse matrimônio, nascessem seus dois filhos. Fora àquela mulher da altivez inconteste, que possibilitou a mim, pensar sempre “grande”. Teve em sua força de trabalho a responsabilidade para com suas clientes. Dentre tantos exemplos, esse foi o maior dos que alguém pôde ter tido. Ela, como uma das melhores costureiras que Campinas já conheceu, ganhadora de prêmios em desfiles de fantasias, elevou aos pícaros de sua existência a responsabilidade de nunca deixar que as roupas que prometesse costurar atrasasse uma hora do combinado. Esse senso de responsabilidade, para que essa entrega no tempo aprazado ocorresse, roubou-lhe noites de sono, fazendo-a transformar o ébano da noite, em marfim da luz de lâmpadas, para cumprir os prazos prometidos. Exemplos dessa mãe ficarão gravados a ferro e fogo em minh´Alma. Foram baseados neles que nunca deixei meus clientes sem receberem o que havia prometido. Durante os vinte e quatro anos de Academia, nunca deixei um aluno sem aula, muito menos que eles ficassem à minha espera. Nunca perdi um vôo, uma partida de ônibus, um encontro combinado. Esse legado que aprendi com Maria de Lourdes Batista Bocatto me fez, naquele ultimo olhar para o centro da terra, perceber em seus ensinamentos que, se nos propusemos a vender laranjas, elas deverão ser vendidas, no tempo certo, para que não entreguemos mercadorias podres. Assim é a vida, uma dura realidade, quer queiramos ou não. Ela sempre afirmou que se a realidade é realidade, deve ser aceita. Descanse em paz minha mãe e que Deus a eternize, como eu a eternizei em meu coração.
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