A reunião não havia terminado ainda; a sequência e a esperada
assinatura do fundador daquela empresa foi, a pedido do próprio, alegando
cansaço, deixada para ser definitivamente assinada no dia seguinte. Como
especialista em semiologia percebi que algo de errado naquela frase. Era
esperar o dia seguinte para fechar o que a teoria chama de triângulo dramático dos jogos. Deixar para assinar algo para
o dia seguinte é algo corriqueiro nas empresas, quer pela última olhada em
documentos, mais uma rodada de conflitos, enfim, vários fatores podem atrasar
uma importante assinatura, porém, cansaço era uma justificativa suspeita. Atores
familiares e suas discussões paralisantes despacham sempre a nau familiar para
destinos ignorados e portos inseguros. Enfim, estava em curso uma provável
narrativa de alcova. Era esperar o dia seguinte para comprová-la.
Na alcova muitos reis e imperadores empresariais são
interpelados pelas suas rainhas e por motivos óbvios entre o tácito acordo de
casais, mudam regras dos jogos familiares. No dia seguinte de fato houve a
comprovação que aquele acordo de fato existia. Pontos relevantes para o
desenvolvimento da empresa, como o afastamento de um filho que comprovadamente
não estava em acordo com os novos ditames da empresa, foi vetado na alcova e
retirado do conjunto da obra de modernização empresarial. Ele, mesmo a contra
gosto de outros irmãos e agregados continuaria em seu cargo. A empresa perderia
é claro, mas, a rainha havia mantido seu rebento preferido na folha de
pagamento da empresa. Puro embate rei versus rainha. Totalmente desnecessário,
por conta de que, em empresas familiares filhos podem se tiverem capacidade
para determinados cargos, pertencerem à folha de pagamento, aqueles que
definitivamente não tem a capacidade, devem fazer parte da hierarquia familiar,
tendo como seu direito de nascimento acesso aos lucros e a herança. O fato; os
acordos lavrados em cartórios pelas famílias que pensam em manterem as empresas
por diversas gerações, assim o fazem e todos ganham.
O grupo que fazia parte do projeto de modernização da empresa
era um pessoal gabaritado e conhecedor dessas – mazelas familiares entenderam
perfeitamente o acordo tácito, no entanto, outros interessados familiares e
sabedores que aquele banho de água fria nos designo do futuro empresarial seria
prejudicial para o futuro da empresa, não aceitaram e a empresa acabou
rachando; as farpas voaram para todas as direções, não houve mais acordo e o
que era para ser um futuro brilhante para aquela família, foi derrubado na
alcova.
Assim é a empresa familiar que faz jogos, confinam em sua alma empresarial pessoas incompletas
para assumirem cargos, desfilam em alegorias escabrosas suas incapacidades e,
finalmente, destroem o sonho do fundador da empresa, cujo sacrifício daquela construção
esbarrou na vontade de uma rainha que somente olhou para seu príncipe querido e
deixou todos os outros ancorados no porto da desilusão. Como empresa de
consultoria nada podemos fazer, pois, o acordo tácito que foi celebrado em
apenas uma noite, poderá conter uma vida a dois; de segredos infindos e mazelas
escondidas nas masmorras dos castelos que habitam casais imperiais
empresariais.
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